Cultura e Communitas, por Mutti Kirinus

Emprestamos o conceito de limiaridade de Victor Turner para refletir sobre nosso tema constantemente revisitado sob diferentes perspectivas, a cultura. Em seu estudo antropológico dos ritos de passagem, Turner descobriu que em toda sociedade estruturada, existem lugares e momentos de limiaridade. O espaço e momento ‘limiar’ tem a característica de estar na fronteira entre o mundo estruturado com suas castas, classes sociais, status, divisão de trabalho, etc., e o mundo não organizado, homogêneo e igualitário. Esse modo de relação igualitário na limiaridade, ele batizou de communitas.

Esse momento ‘limiar’ tem a clara função de um rompimento com a estrutura social para posteriormente um retorno renovado para a mesma. Algumas festas populares nas sociedades modernas tem essa mesma função, como é o caso do Halloween americano que precede o ‘Dia de todos os Santos’ e no qual nessa véspera, é permitida uma reverência às figuras malévolas e travessuras às crianças. O carnaval, que antecede o período da quaresma, também tem um pouco essa função, em uma espécie de liberdade popular. Inúmeras festas populares e feriados tem essas mesmas características no Brasil e em outros países. Nestes casos, através do lúdico e do cômico, tem-se a intenção de romper com a rigidez da norma pré-estabelecida e proporcionar um momento de descontração. Ou seja, a sociedade para sua própria sobrevivência precisou se organizar e, para se manter assim, cria uma estrutura mais ou menos rígida. Esta, porém, para se romper, precisa de momentos e espaços limiares. Nestes espaços, a sociedade se oxigena, os indivíduos vivem relações que não são apenas da ordem da produção e funções sociais, mas ao contrário, relações de caráter universal. Muitos movimentos espontâneos de comunidades alternativas dentro de sociedades estruturadas surgiram espontaneamente com o objetivo de buscar esse modo de relação. O autor cita o movimento hippie dentro de uma sociedade de consumo, o nascimento da ordem franciscana dentro da estrutura da Igreja Católica, o cristianismo primitivo dentro da estrutura da sociedade romana, os falanstérios do socialismo utópico dentro do capitalismo emergente, etc. Ligados a esses movimentos, surgem novos gêneros musicais, ideologias, textos ou discursos filosóficos e literários, poemas, canções, rituais.

Devemos ter em mente que os ritos de passagem nas sociedades pré-industriais estudadas por Turner são repletos de encenações, música, dança, textos e palavras cheias de simbolismo. Sim, qualquer semelhança com a arte não é mera coincidência! Como dissemos em artigo anterior, foi gradativamente que a arte se tornou independente da religião. O fato é que, com ou sem a religião, a arte continua sendo o espaço e momento em que, através da comoção proporcionada pela contemplação estética, todas as pessoas estão despidas de suas funções e posições sociais e encontram-se verdadeiramente em comunhão umas com as outras, através de um mesmo sentimento universal. A arte dentro da nossa sociedade serve para isso, para respirar. Ou como disse Mário Quintana no seu segmento artístico, mas que podemos expandir para toda criação artística: Quem faz uma poema abre uma janela, (…) quem faz um poema salva um afogado!

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Mutti
Gestor Cultural
Helmuth A. Kirinus é mestre em Filosofia pela UFPR, formado em gestão cultural e músico. Atualmente coordena 8 projetos via lei Rouanet de incentivo à cultura e 4 via Sistema Municipal de Desenvolvimento da Cultura de Joinville. É professor de violão e coordenador da Escola de Música Tocando em Frente em Itapoá. Atua também como representante técnico do setor Comunicação e Cultura dos projetos do Ampliar pelo Porto Itapoá.

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