7 de março de 2026 - 04:59

“Tempo de Cultura”, por Mutti Kirinus

Mutti Kirinus - colunista Tribuna de Itapoa

FOTO: Mutti Kirinus / Arquivo Pessoal.

Não é difícil perceber que a moeda da existência é o tempo. E também que vendemos nosso tempo de vida, diariamente, em troca de moeda para garantir nossa subsistência. Quanto maior o tempo necessário para trocar por moeda para sobreviver – e isto muda de acordo com a profissão exercida, situação econômica de um país, e com a paridade ou desigualdade de direitos que os governantes eleitos promovem – menor será o tempo livre para se dedicar a alguma outra atividade ou, simplesmente, repousar.

É necessário refletir sobre a promoção de atividades culturais dentro desse contexto de realidade inevitável. Por um lado, a oferta de atividades gratuitas promove a democratização de acesso à cultura; por outro, ela não resolve a questão da falta de espaço em nosso cotidiano, para se dedicar a algo que não paga nossas contas.

O investimento na educação para essa promoção acontecer é um bom caminho, juntamente com a diminuição da pobreza e do trabalho infantil, pois, de modo geral, os estudantes não estão ainda inseridos no mercado de trabalho e não são integralmente responsáveis pela sua subsistência. Mas se esse aluno não se tornar um profissional da cultura, opção que demanda muito amor e coragem, na passagem da adolescência para a juventude, ele terá que abandonar o tempo dedicado a essas atividades para entrar e fazer parte do mercado de trabalho.

Uma situação paliativa que acontece em países melhores organizados é a promoção de bolsas de estudos para que, em determinadas áreas, o indivíduo não precise abandonar o longo caminho do estudo das artes.

A oferta gratuita para o público que recebe aposentadoria também pode ser uma boa opção, apesar de que com a Reforma da Previdência, o trabalhador terá cada vez menos tempo para usufruir desses bens. Esta vai atingir pessoas que já tiveram afinidade para essas atividades na infância ou idade madura, pois é um pouco mais difícil criar novos hábitos na fase mais idosa, mas não impossível.

No entanto, mesmo atingindo esses públicos com êxito, teríamos ainda a maior parcela da população distante da possibilidade de usufruir dessas atividades, mesmo gratuitamente. Para isso, seria necessário um grande trabalho de conscientização do empresariado e um governo que trabalhasse a favor da cultura, e não contra. O benefício agregado ao salário do Vale Cultura; as leis de incentivo à cultura municipal, estadual e federal; a diminuição do arroxo salarial; a reaquisição do direito de descanso semanal remunerado; a diminuição da pobreza e desigualdade social são melhorias que também ajudariam o Brasil a ter mais cultura.