Democratização da Ignorância e Criminalização da Cultura, por Mutti Kirinus

De tudo aquilo que ignoro, posso apenas emitir mera opinião. A opinião com certeza tem a sua utilidade e lugar. Posso, mesmo sem conhecimento aprofundado, emitir uma opinião sobre uma música, um corte de cabelo, uma receita, um lugar. Quando, porém, o assunto envolve vidas, a economia de um país, segurança pública, educação, cultura, e qualquer outro tema mais abrangente, o bom senso nos obriga a ter um maior cuidado, pesquisa e reflexão sobre o que se vai dizer ou repassar. A facilidade de publicação e divulgação de uma opinião nos dias de hoje causou uma aparente sensação de democracia, o que não é de todo mentira. Pode-se denunciar, divulgar, reclamar, reprovar, aplaudir, curtir, odiar, democraticamente; mas também pode-se difamar, mentir, xingar, dissimular, confundir, anti-democraticamente.

Ao lado dessa democratização da opinião houve, nos últimos cinco anos, no Brasil, uma crescente criminalização da Cultura. Ela iniciou com uma tentativa de criminalização da Lei Rouanet com ataques a artistas consagrados. No entanto, qualquer pessoa que tivesse um mínimo de conhecimento sobre a lei ou pesquisasse o projeto supostamente apresentado, veria que o crime estava na tentativa de confundir a opinião pública sobre a imagem desses artistas ou sobre os trabalhos com a Cultura no País. Artistas consagrados em vida com reconhecimento nacional e internacional, como Chico Buarque por exemplo, sofreram muitos ataques nas redes. Intelectuais como Paulo Freire também. Até o autor imprescindível no currículo das faculdades de Economia (por sua célebre análise do Capitalismo), História (pela inauguração do conceito de materialismo histórico) e Filosofia (pois inaugurou o próprio conceito de ‘ideologia’), foi condenado pelos opinadores das redes, não obstante, o mundo todo e a própria história preserve o seu lugar de destaque nas prateleiras das obras consagradas.

Uma boa parte destes ataques, em sua grande maioria, não possuem conteúdo reflexivo quando questionados ou desviam o foco argumentativo, pulando de um argumento para outro ou se eximem da responsabilidade, dizendo que esta é apenas sua opinião pessoal. Uma outra parte, em maior número, são xingamentos, acusações de ideologia partidária, frases de efeito ou ironia.

Embora a democratização da opinião possa vir a ser positiva, essa não pode possuir um valor maior do que o mérito artístico, intelectual e cultural dos que obtiveram esse reconhecimento. Isso pelo simples fato de que uma opinião é imediata e não requer nenhum esforço, enquanto que o reconhecimento leva anos, quando não uma vida toda, de dedicação. Esses ataques a tudo o que for contra a opiniões disseminadas atinge o próprio jornalismo, o tempo dedicado a pesquisa, redação, responsabilidade de um profissional, citação de fontes não possuem mais valor e são combatidos pelos opinadores que facilmente se propõem a desqualificar matérias, veículos e jornalistas. Com a imediatização do mundo, vivemos uma espécie de ditadura da opinião.

O título desta coluna expõe um fato que não promete dar frutos edificantes para a civilização. O ideal seria o seu contrário: A Democratização da Cultura e Educação, que elevaria o nível das opiniões; e a Criminalização das opiniões nocivas à sociedade, aquelas difamatórias, e que promovem algum tipo de inverdade, intolerância e violência.

A propósito: qual a sua opinião sobre esta coluna? Deixe o seu comentário sobre o assunto e ajude a divulgar esta reflexão.

Mutti

Mutti

Helmuth A. Kirinus é mestre em Filosofia pela UFPR, formado em gestão cultural e músico. Atualmente coordena 8 projetos via lei Rouanet de incentivo à cultura e 4 via Sistema Municipal de Desenvolvimento da Cultura de Joinville. É professor de violão e coordenador da Escola de Música Tocando em Frente em Itapoá. Atua também como representante técnico do setor Comunicação e Cultura dos projetos do Ampliar pelo Porto Itapoá.

2 comentários em “Democratização da Ignorância e Criminalização da Cultura, por Mutti Kirinus

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    27 de fevereiro de 2019 em 01:18
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    Cara Ivone, discordamos, e isso é óbvio. Talvez não precisasse dizê-lo. Mas já que o fizeste tenho que lhe dizer que o tema do artigo trata sobre uma criminalização da lei da qual és apenas mais uma vítima. Eu trabalho com a lei há mais de 4 anos, e se consigo trabalhar com ela e não sou um artista famoso (igual a dezenas de gestores culturais que conheço) este fato somente já prova que ela não é como dizes. Desse modo as críticas que consideras justas deveriam ser verificadas em dados de fontes reais e seguras, e não apenas das postagens das redes sociais que foram o veículo desta criminalização. É isto o que diz o texto. Quanto ao Chico Buarque acho que ele também não é seu fã. No entanto, isso não muda nada o fato de que a obra de vcs seja ou não reconhecida mundialmente. A dele é. É sobre isto que trata o artigo, colocar sob o mesmo peso uma mera opinião e uma obra consagrada. Uma opinião é feita imediatamente e sem esforço, uma obra leva uma vida inteira de trabalho. É isto que diz o artigo. Felizmente as opiniões, como a moda, passam e essas obras permanecem.

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    25 de fevereiro de 2019 em 14:06
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    Multi, em Boa parte discordo do seu pensamento sobre a Lei Rouanet. Discordo porque entendo q a lei foi criada para incentivo a artistas novos e não como financiamento de artistas consagrados. Se observarmos, os financiamentos desta Lei foram sempre para o mesmo grupo de artistas, daí as críticas, que considero Justas. Aproveito para dizer q não sou fã do Chico Buarque de Holanda, que considero um aproveitador.

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