“Arte e Progresso”, por Mutti Kirinus

Os seres humanos, os homens e as mulheres, eu e você, recebemos uma herança de ideias, pensamentos, conceitos e preconceitos, somente pelo fato de nascermos em determinado período em que estes foram disseminados. Um deles é que a Arte tem algo de indisciplina, de libertinagem, de maluquice, e de vagabundagem. Estas ideias estão no ar, e podem ser denominadas, ao serem reconhecidas como inverdades, ou pelo menos não fundamentadas em fatos ou verificação apurada, de ideologia do senso comum. E elas sobrevivem depois de disseminadas durante décadas ou séculos para todo aquele que as contraem sem estarem imunizados pelo senso crítico.

Por esse motivo, aliado a uma disseminação de ideias negativa sobre as artes, sempre está aliado um afastamento de disciplinas como filosofia e sociologia, quando o objetivo é promover a alienação e manipular a opinião pública. Este fato ocorre por serem estas disciplinas a vacina contra a alienação, que seria no sentido que estamos falando, aceitar essas ideias sobre as artes sem uma análise crítica, já que estas disciplinas são as que desenvolvem este senso crítico e nos permitiria questionar estas ideias. A reversão destas ideias negativas disseminadas, o que aconteceria com a sua verdadeira valorização, deveria ser o dever de todas as esferas públicas. Isso no entanto não acontece, ou acontece muito pouco se comparado com outros setores em termos de investimento de recursos. Isto se deve também por a própria arte tem um papel crítico social, ela possui na sua essência um papel transformador da sociedade. Gosto muito de uma definição de Adorno de um dos elementos essências de uma obra de arte, ela é ‘uma promessa de felicidade’. Nesse sentido, é natural que ela vá contra situações sociais que não condizem com essa promessa.

Quanto ao seu aspecto disciplinar, e em tempos de olimpíadas, recordo de uma frase muito usada por um dos meus professores de violão, ‘o músico tem que estudar tanto quanto um médico e praticar tanto quanto um atleta’. Quem já teve o contato com o estudo da música sabe que sem disciplina, estudo e prática diária durante anos, durante décadas melhor dizendo, não surge nenhum músico no planeta. É uma disciplina porém que nasce de dentro para fora, não arbitrária, não imposta como se vem supervalorizando em uma espécie de militarismo educacional. É uma disciplina, assim como no esporte, de progredir, e de dar um passo adiante para levar a tocha acesa dessa promessa de felicidade que a arte traz consigo.

Mutti

Mutti

Helmuth A. Kirinus é mestre em Filosofia pela UFPR, formado em gestão cultural e músico. Atualmente coordena 8 projetos via lei Rouanet de incentivo à cultura e 4 via Sistema Municipal de Desenvolvimento da Cultura de Joinville. É professor de violão e coordenador da Escola de Música Tocando em Frente em Itapoá. Atua também como representante técnico do setor Comunicação e Cultura dos projetos do Ampliar pelo Porto Itapoá.

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