7 de março de 2026 - 05:10

“Às vezes, a memória é curta”, por Werney Serafini

Werney Serafini - Capa Tribuna de Itapoa

FOTO: Werney Serafini / Arquivo pessoal.

Há dez anos, uma coluna de fumaça surgiu em Santos, litoral paulista, no maior porto da América do Sul. Visível nas imagens da televisão em horário nobre.

Choveu muito em janeiro daquele ano no porto de Santos. Algumas estruturas de contêineres cederam e a água, em contato com produtos à base de cloro, provocou reações químicas, causando focos de incêndios que se alastraram rapidamente e uma fumaça tóxica se espalhou indiscriminadamente. Pessoas sofreram irritações na pele e nos olhos. A fumaça, caso inalada, poderia causar problemas respiratórios.

Áreas do complexo portuário foram evacuadas e a fumaça chegou ao Guarujá, cidade vizinha, onde a principal avenida ficou coberta por névoa intensa. Atingiu São Vicente e continuou a se espalhar pela Baixada Santista. O episódio alarmou a população.

Dois anos antes, uma nuvem de fumaça surgiu em São Francisco do Sul, no outro lado da Babitonga. Tal qual em Santos, causada por incêndio em depósito com produtos químicos. O armazém localizado na área residencial da cidade não possuía plano de prevenção de incêndios, não era vistoriado pelas autoridades e suas atividades já tinham sido suspensas pela Justiça. A decisão, contestada na época, foi reconfirmada por pericia solicitada pelo Ministério Público. Uma inacreditável sucessão de omissões. A fumaça dissipou, o susto passou e o assunto caiu no esquecimento.

Em situação de perigo ou risco iminente, as pessoas tendem a maximizar ou minimizar causas e efeitos, aumentar ou diminuir os fatos. Na época, informações vagas, imprecisas e desencontradas geraram muita insegurança. De cada fonte, oficial ou não, se ouvia uma ou outra explicação, a maioria contraditória. Na dúvida, fez-se o obvio: quem podia deixou a cidade ou levou para fora os familiares, especialmente crianças e idosos. Fato também observado em Itapoá.

Fumaças à parte, o Porto em Itapoá tem licença para movimentar produtos dessa natureza. Isso não significa que não possua equipamentos e pessoal capacitado para agir eficientemente em situações emergenciais. Certamente que tem.

Os terminais portuários têm, ou deveriam ter, no seu entorno, as chamadas áreas retroportuárias, para abrigar depósitos, sistemas viários para armazenamento e movimentação de produtos e materiais, além de serviços complementares. O “acidente” em São Francisco do Sul, diferente de Santos, não foi no porto, mas na cidade, em área urbana.

Itapoá destinou parte do seu território para a implantação de uma área retroportuária e industrial destinada as empresas agregadas às atividades do Terminal. No entanto, além da delimitação geográfica, faltou planejamento definindo critérios para a distribuição e ocupação da área a fim de evitar desencontros semelhantes aos que ocorreram na urbanização de Itapoá, privilegiando interesses e necessidades pontuais.

Assim, para que se tenha um horizonte temporal livre de surpresas, vale reprisar sugestões anteriores para que, no Plano Diretor e agora na revisão do atual, seja considerada a reestruturação e adequação da área retroportuária de Itapoá.

O momento é oportuno para essa intervenção, dada a expansão ocorrida nos limites da área retroportuária e na expectativa futura da implantação de um novo terminal, com proporções similares ao do atual. De nada adiantará terminais portuários modernos, ágeis, eficientes e ambientalmente seguros, mas limitados por entornos problemáticos.

Afinal, mais vale prevenir do que remediar.

Itapoá (Primavera), outubro de 2025.