6 de julho de 2026 - 23:22

“Sobre o plano diretor”, por Werney Serafini

Werney Serafini

FOTO: Werney Serafini / Arquivo Pessoal.

As cidades estão congestionadas. Grandes, médias, até mesmo as pequenas, sofrem o mesmo mal. As turísticas, as litorâneas e, especialmente, as portuárias como Itapoá, têm sido literalmente invadidas e sofrem as consequências do crescimento exponencial.

Ao iniciar o processo de atualização do Plano Diretor de Itapoá, vale refletir sobre algumas ideias de Enrique Peñalosa*, prefeito por duas gestões, em Bogotá, capital da Colômbia. Como solução, propõe medidas restritivas ao uso dos automóveis através de pedágios urbanos, limitação do estacionamento de veículos nas ruas e outros impedimentos mais restritivos, ou seja, uma mudança radical na gestão das cidades.

Para humanizar as cidades é preciso acabar com o que classifica como “rodovias urbanas”. Mudar o conceito tradicional do que é uma rua e transformá-la em espaço para o transporte coletivo, para bicicletas e, fundamentalmente, com amplas e planejadas calçadas para as pessoas caminharem.

Nas suas gestões, fez o que a maioria dos prefeitos não consegue: transformou o discurso em realidade, materializando suas propostas. Reformou calçadas, implantou quilômetros de ciclovias protegidas, revolucionou o transporte coletivo urbano, adotando o modelo de canaletas segregadas para ônibus, criado e testado em Curitiba pelo arquiteto e urbanista Jaime Lerner.

Considera a construção de calçadas fundamental em uma cidade. Planejadas, padronizadas e executadas em conformidade com normas técnicas, com uniformidade, qualidade e estética. Nas cidades tidas como exemplos em urbanização, não são as ruas e avenidas que as diferenciam das demais, mas sim a qualidade das suas calçadas. Há que se sair da mesmice de sempre, ou seja, pintar os meios-fios de branco.

Para ele, a dificuldade para implantar calçadas e ciclovias é mais política do que econômica. Construir ciclovias implica em investimentos, mas que podem ter custos reduzidos com a criação de obstáculos, como por exemplo, os estacionamentos para os veículos nas ruas serem substituídos por ciclofaixas largas e bem-sinalizadas, situadas nas principais vias. Quanto às calçadas, na maioria das legislações municipais, construí-las é de responsabilidade dos proprietários dos imóveis, resta saber quem será responsável pela manutenção.

Não há mais condições para crescer indefinidamente. Não se pode mais privilegiar espaços para automóveis em detrimento da mobilidade das pessoas, como ainda se faz em muitas localidades. As situadas à beira-mar devem impedir a circulação e o estacionamento de veículos na orla. A praia e o entorno devem servir ao lazer da população e dos turistas. O espaço frente ao mar, respeitado o limite das restingas e da vegetação costeira, para abrigar calçadões.

Qualidade de vida é atrativo para as pessoas escolherem o local onde viver. A boa cidade é aquela onde as pessoas possam caminhar com tranquilidade e segurança pelas vias públicas. Portanto, calçadas são elementos fundamentais na infraestrutura urbana.

No entanto, antes de qualquer decisão é imperativo saber o que se quer para a cidade. Se o desejo é que as pessoas vivam felizes, viver em meio a congestionamentos de toda a ordem, certamente não será motivo de felicidade.

O futuro de Itapoá depende das escolhas da sua gente. A cidade poderá servir a muitos ou a poucos. É preciso definir o que se quer. Se o desejo for torná-la sustentável, com qualidade de vida para todos, será imprescindível encontrar um equilíbrio entre as alternativas ambientais, sociais e econômicas.

*Enrique Peñalosa é graduado em Economia e História, pós-graduado em Administração Pública, foi prefeito em Bogotá na Colômbia,

Itapoá (Outono), maio de 2026.

Werney Serafini é presidente do Conselho Diretor da ADEA – Associação de Defesa e Educação Ambiental.