27 de junho de 2026 - 15:46

“Mercado da Maria? Que Maria?”, por Werney Serafini

Werney Serafini

FOTO: Werney Serafini / Arquivo Pessoal.

Recentemente, foi reinaugurado o Mercado da Maria, o ponto de encontro da cidade.  No entanto, muitos perguntam sobre a Maria que deu nome ao local.

A Maria sou eu, um passarinho, entre os tantos existentes em Itapoá. Meu nome é “Hemitriccus kaempferi”, da família “Tyrannidae”, assim mesmo, escrito em latim, língua extinta usada para denominar os seres vivos do planeta. Popularmente, sou conhecida como Maria Catarinense ou Maria Catarina.

Sou endêmica das florestas de Mata Atlântica do litoral norte de Santa Catarina. Endêmicas são as espécies exclusivas de determinadas regiões.

Discreta, não chamo atenção. Minhas penas esverdeadas confundem-me com o verde da floresta e fico pouco visível, difícil de ser vista. Alguns chegam a dizer que me escondo das pessoas. Pode parecer estranho, mas esse é o meu grande atrativo.

Nasci no litoral norte da Santa e Bela Catarina e tenho predileção pelas florestas de Itapoá. Dependo delas para viver e perpetuar minha espécie. Vivo na borda da mata, caçando pequenos insetos; sem eles e sem as árvores não poderia sobreviver.

Infelizmente, faço parte de uma lista sinistra. A lista das aves ameaçadas de extinção. Aliás, o Brasil é o país que mais espécies tem nessa lista; perguntem ao Bicudinho-do-brejo, à Maria-da-restinga, e à Saíra-sapucaia, que também vivem aqui.

Percebo que, em Itapoá, sou pouco conhecida, daí a razão de me apresentar. No entanto, em outros lugares, no estrangeiro por exemplo, sou popular e considerada até uma celebridade. Observadores de aves, os conhecidos “birdwatching’s”, vêm de países distantes para ver a exuberante avifauna local. Não é à toa que Itapoá é considerada parte da Reserva Mundial da Biosfera pelo Programa Homem e Biosfera da UNESCO, além de referência internacional para observação de aves. Deve isso à Reserva Volta Velha, que protege parte da floresta de que dependo.

Às vezes, fico pensando e não consigo entender: os humanos são estranhos, destroem as florestas onde vivo e, depois, colocam meu nome numa lista dizendo que estou em perigo, ameaçada de extinção. Criam leis para a minha proteção, geralmente não cumpridas e, quando quase desapareço, vêm de longe me ver.  Acho isso muito estranho!

O pessoal da ADEA propôs à Câmara de Vereadores que a Maria Catarinense fosse eleita Ave Símbolo de Itapoá. A solicitação, aprovada por unanimidade pelos vereadores e sancionada pelo prefeito, transformou-se na Lei Municipal 261/2009 de 09 de dezembro de 2019. Atualmente, mais que a ave símbolo da cidade tenho orgulho em dizer que também me tornei símbolo da preservação e conservação da Natureza em Itapoá. Portanto, pertenço a Itapoá.

Quem bom seria, se existissem mais Unidades de Conservação em Itapoá e que mais pessoas viessem conhecer e desfrutar esse rico patrimônio natural de que fazemos parte. Tenho muita esperança de que isso aconteça. Afinal, os humanos dizem que a esperança é a última a morrer.

Recomendo: vá e leve seus amigos para conhecer o Mercado da Maria. Vale à pena! Mas, permito-me sugerir ao Prefeito – afinal, ele foi um dos autores do projeto de lei – que deixe essa história gravada num memorial frente ao Mercado, para que as pessoas saibam quem sou e o que represento. E que a cidade que mais cresce em Santa Catarina tem compromisso raiz com o meio ambiente e sua rica biodiversidade.

Itapoá (Inverno), junho de 2026.

 

Werney Serafini é presidente do Conselho Diretor da ADEA – Associação de Defesa e Educação Ambiental.