7 de março de 2026 - 03:24

“Itapoá e a vocação portuária”, por Werney Serafini

Colunista Werney Serafini - Capa Tribuna de Itapoá

Há quem diga que o Porto de São Francisco do Sul deveria estar localizado em Itapoá, em razão do excepcional canal natural próximo a costa e cuja profundidade dispensa aprofundamentos e desassoreamentos constantes. A existência desse privilegiado canal corrobora com a vocação portuária do Município.

Nos anos 90, o grupo Batistella, do segmento madeireiro, adquiriu terrenos no local para implantar um terminal portuário voltado à exportação de cavacos de pinus.

O projeto foi muito discutido na época. Manifestações favoráveis e outras tantas contrárias. Aos favoráveis, a alternativa de mudança do perfil econômico de Itapoá, rompendo com a dependência única da temporada de verão. Aos contrários, prováveis impactos ambientais como poluição e degradação, trazendo mais malefícios do que benefícios. O projeto, inclusive, foi contestado no judiciário.

Posteriormente, condicionantes ambientais e circunstâncias de mercado fizeram com que o projeto fosse redirecionado para um terminal destinado a movimentação de contêineres. Divergências à parte, com a incorporação de outros investidores, o terminal foi implantado.

A operação portuária comprovou as expectativas iniciais quanto aos benefícios econômicos. A estrada da Serrinha, reivindicação antiga, foi ampliada e pavimentada. A Celesc concluiu a linha para transmissão de energia elétrica, outra reivindicação antiga. O acesso utilizado para a construção do terminal, foi pavimentado da Barra do Saí à Figueira do Pontal, interligando os extremos do Município, favorecendo a mobilidade urbana. A área retroportuária incorporada ao plano diretor da Cidade, atraiu investidores e Itapoá cresceu extrapolando fronteiras. Sem dúvida, legado positivo do empreendimento, direta e indiretamente.

Infelizmente, na época, os recursos das compensações impostas no licenciamento ambiental não ficaram no Município. Por exigência legal, foram transferidos para unidades de conservação públicas como o Parque do Icaraí em São Francisco do Sul e o Saint Hilaire-Lange em Guaratuba. Itapoá não possuía unidades de conservação públicas para a destinação do recurso. Paradoxal, para um município com relevante patrimônio ambiental.

O Porto despertou a latente vocação portuária de Itapoá e se incorporou ao cotidiano da população. No entanto, consequências da atividade foram inevitáveis. A área retroportuária, sucessivamente ampliada ao longo da rodovia de acesso e até as divisas do Município, foi ocupada gradativamente por terminais de contêineres. O planejamento para a implantação dos terminais, sistemas viários, movimentação e estacionamento dos veículos de carga, foi sistematicamente omitido e agora, a olhos vistos, a cidade percebe os efeitos negativos da omissão.

A gestão pública de Itapoá, não conseguiu acompanhar o exponencial crescimento populacional e econômico proporcionado pela atividade portuária, cujos efeitos são visíveis no dia a dia cidade.

Há que se considerar, também, a futura implantação de um novo terminal portuário, voltado à movimentação de líquidos e granéis, com dimensões equivalentes à do atual porto. Portanto, para que se evite um “caos anunciado”, a Administração Pública – poderes Executivo e Legislativo – precisa priorizar o processo de intervenção e revisão da atual área portuária, com vistas a um novo incremento nas atividades portuárias do Município, e materializar o recorrente discurso sobre desenvolvimento sustentável com qualidade de vida em Itapoá.

A revisão do atual Plano Diretor, prevista para 2026, será o momento oportuno para que, com a participação popular nas oficinas e Audiências Públicas, a população contribua com sugestões de interesse sobre o tema.

Afinal, “prevenir é melhor que remediar”.

Itapoá (Inverno), agosto de 2025.