7 de março de 2026 - 05:10

“Por falar em Mendanha”, por Werney Serafini

Colunista Werney Serafini - Capa Tribuna de Itapoá

Alguns acham que rios nas cidades são problemas, pois atrapalham a urbanização. A pratica é aterrá-los, desviá-los, drená-los ou revesti-los em galerias e tubulações de concreto, ou seja, empurrar o problema para “debaixo do tapete”, no caso, da terra.

Felizmente, isso está mudando. Investe-se na recuperação dos rios, das nascentes e dos córregos até então escondidos para dar espaço a ruas, avenidas e empreendimentos imobiliários. A proposta é “renaturalizá-los”, isto é, trazê-los de volta ao estado original, o que nem sempre é possível. A questão é como fazer.

Experiencias em diversos países apontam a “renaturalização” não só necessária, mas possível. Especialistas afirmam que é urgente e que as cidades, notadamente as brasileiras, precisam aprender a tratar melhor as suas águas.

O cuidado é imperativo, pois as variações climáticas assumem proporções gigantescas e se não forem enfrentadas, surgirão sérios problemas. Portanto é inadiável recuperar a quantidade e a qualidade dos rios nas cidades.

Ninguém discorda que a prioridade deve ser a coleta e o tratamento do esgoto, no entanto, simultaneamente, é preciso cuidar das nascentes, abrir os rios onde for possível, conservar o que está aberto, criar parques lineares e proteger a vegetação das margens.

No Brasil, algumas iniciativas merecem destaque:

São Carlos, no noroeste de São Paulo, renaturalizou um trecho de 300 metros próximo à nascente do córrego Tijuco Preto e descartou um projeto para extensão de uma avenida sobre a área. Com orientação do Departamento de Hidráulica e Saneamento da Escola de Engenharia de São Carlos, utilizou técnica de estruturação de margens, dispensando paredes de concreto. O sistema estabiliza o solo com materiais que se degradam a medida em que a vegetação cresce e passa a ser fixadora do terreno, entre os materiais empregados, o eucalipto não tratado.

Em São Paulo, no Jardim Botânico, o canal que escondia o córrego Pirarungaua, sob a alameda Fernando Costa, apresentava problemas estruturais, pois as paredes do canal, construído em 1940, haviam desmoronado. O Instituto de Botânica decidiu reabrir e regenerar o córrego, afluente do Ipiranga, em cujas margens foi proclamada a independência do Brasil. A reabertura consistiu na substituição do pavimento da alameda, por um deque elevado feito com madeira reflorestada e tratada, numa extensão de 250 metros. Nas margens foram plantadas espécies da Mata Atlântica. Hoje, quem visita o Jardim Botânico, além de visualizar o córrego, tem acesso à nascente.

A renaturalização dos cursos d’agua ocorre em cidades urbanizadas há longa data, quando os rios eram simplesmente desviados, canalizados e escondidos. Alternativa que demonstrou ser inadequada, com consequências desastrosas em termos ambientais, causando enchentes, inundações e poluição.

Não será uma alternativa para o degradado e poluído rio Mendanha? Desafio para os gestores municipais no sentido de transformar Itapoá em exemplo de cidade sustentável e que respeita seus rios e suas águas. Como complemento da recente dragagem e desassoreamento do seu leito, a elaboração de diagnóstico técnico multidisciplinar sobre a real situação do Mendanha, com vista a sua regularização ambiental e possibilidade de criação de um Parque Linear, nos trechos ainda não canalizados e ocupados.

Antes tarde do que nunca.

Itapoá, inverno de 2025.