7 de março de 2026 - 03:27

“Sobre árvores e florestas”, por Werney Serafini

Werney Serafini

FOTO: Werney Serafini / Arquivo Pessoal.

Há uma década, Antonio Donato Nobre, agrônomo e pesquisador do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), afirmava que o desmatamento no Brasil, inclusive o legal, deveria cessar imediatamente.

Atribuía a falta d’água e as secas prolongadas à supressão das florestas, especialmente a amazônica. “A agricultura consciente, se soubesse o que a comunidade científica sabe, estaria nas ruas com cartazes, exigindo do governo a proteção das florestas e plantando árvores nas suas propriedades”, pregava.

Nos últimos 40 anos, desmatou-se na Amazônia, o equivalente a três estados de São Paulo ou 184 milhões de campos de futebol, na proporção de quase um campo para cada brasileiro, isso sem falar na degradação florestal. Foram cortadas, segundo ele, 42 bilhões de árvores, 3 milhões por dia, 2 mil por minuto. Quem percebeu nitidamente a falta de cada árvore foi o clima, que se transformou no juiz rigoroso, que além de contar as árvores derrubadas, não as esquecia e muito menos perdoava. Isso tudo dez anos atrás.

Os céticos das alterações climáticas fizeram e ainda fazem com que os governos não acreditem no aquecimento global. O resultado do descrédito foi o aumento das emissões, fazendo com que o clima, conforme previsto, entrasse em colapso bem mais rápido do que se pensava.

A duração da estação seca aumenta ano a ano e o volume de chuvas segue diminuindo. Agricultores do centro oeste são obrigados a adiar os plantios, porque não chove no tempo certo. A seca de 2005 foi a maior em 100 anos, a de 2010, maior que a de 2005 e assim vai.

Para Nobre, a floresta é uma espécie de seguro, um sistema de proteção. Não se sentia os efeitos dos 500 anos de destruição da Mata Atlântica, porque existia a Floresta Amazônica. A sombra úmida da Amazônia não deixava perceber os efeitos da destruição da floresta local.

A Amazônia é quem transporta a umidade continente adentro. O mar é a fonte de toda a água que, ao evaporar, deixa o sal no oceano, cabendo ao vento empurrar o vapor para dentro do continente. Na América do Sul, atinge 3 mil quilômetros na direção dos Andes e carrega umidade graças às árvores que ele chama de “gêiseres” da floresta.

Explica que uma árvore com dez metros de raio na copa libera, pela transpiração, mais de mil litros de água por dia. Estima-se que na bacia Amazônica, que tem 5,5 milhões de quilômetros quadrados, os “gêiseres de madeira” transpiram cerca de 20 bilhões de toneladas de água diariamente. Esse fluxo de vapor, maior que o próprio rio Amazonas, segue continente adentro e recebendo a transpiração das árvores. Mantêm-se úmido, com a capacidade de fazer chover. Essa é uma das principais características das florestas, e é o que faz falta em São Paulo, porque acabaram com a floresta da Mata Atlântica.

A floresta funciona tal qual um “ar-condicionado” produzindo um outro rio amazônico de vapor. A maciça formação de nuvens de baixa pressão atmosférica puxa o ar que está sobre o oceano para dentro da floresta, como uma espécie de bomba biótica de umidade, uma correia transportadora por assim dizer.

Estamos localizados no “quadrilátero da sorte” que vai de Cuiabá a Buenos Aires no Sul, e de São Paulo aos Andes. Ele concentra 70% do PIB da América do Sul. Na mesma latitude estão os desertos do Atacama, o Kalahari, o deserto da Namíbia e o da Australia. Portanto, a região deveria ser um deserto também, mas não. É irrigada e úmida, graças a Amazônia que exporta umidade. Por vários meses, a umidade chega através de “rios aéreos” transportando o vapor que é a fonte da chuva no quadrilátero.

“Onde tem floresta não tem furacão e nem tornado”, diz. A floresta promove a regularização do clima, atenua os excessos e impede os eventos destrutivos.

Conclui que parar o desmate, mesmo que fundamental, não resolve mais. A solução agora é zerar o desmatamento, replantar as florestas e refazer os ecossistemas.

E Itapoá?

Próxima a São Paulo onde Nobre presenciou, incredulamente, reservatórios secarem e parte da cidade ser abastecida por carros-pipas transportando água para a população, em Itapoá é diferente. Felizmente, o problema não é escassez, é a captação em volume suficiente para atender os acréscimos populacionais, especialmente no verão. A solução foi a construção de estações e a ampliação da rede de distribuição. Porém, muito pouco na conservação do manancial de abastecimento.

Ao contrário de São Paulo, existem em Itapoá, remanescentes significativos de florestas de Mata Atlântica em bom estado de conservação. E árvores, muitas árvores. As dezenas, centenas e milhares. Aqui ainda têm as árvores que faltam em São Paulo.

No entanto, as árvores de Itapoá estão sendo derrubadas, uma após a outra, para dar lugar ao desenvolvimento baseado exclusivamente no crescimento econômico. Essa realidade precisa ser reavaliada.

Há que se chegar ao equilíbrio e isso implica em responsabilidade. Políticas públicas para estímulo à conservação da vegetação nativa, notadamente nas bacias hidrográficas que abastecem o manancial de captação.

São Paulo é um alerta incontestável, exemplo a não ser seguido.

Por fim, acredite quem quiser.

Itapoá (Verão), janeiro de 2025.